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O Dúvidas Técnicas ABENTI é um canal público direcionado a enfermeiros e técnicos de enfermagem atuantes na terapia intensiva adulto, pediátrica e neonatal para o esclarecimento exclusivo de dúvidas corriqueiras da prática clínica. 
As dúvidas serão direcionadas ao comitê de especialistas ABENTI, de acordo com a subárea do conhecimento relacionada ao questionamento. 
As respostas serão publicadas nessa seção em até 30 dias, a contar a partir da data de envio do formulário abaixo.
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Dúvidas Técnicas

Data: 05/08/2025
Emitido por: Comitê Técnico-Científico da ABENTI

“Prezados(as),
Gostaria de esclarecer uma dúvida quanto à utilização de bomba de infusão para irrigação vesical contínua, especialmente no pós-operatório de ressecção transuretral de próstata (RTU). Há alguma recomendação, protocolo ou contraindicação formal em relação ao uso desse tipo de dispositivo nessa situação? Além disso, a bomba de infusão pode ser empregada com segurança em outras condições clínicas que demandem irrigação vesical contínua, ou seu uso deve ser evitado nesses contextos? Realizei uma busca prévia na literatura científica, porém não encontrei uma resposta concisa quanto à indicação ou não do uso da BIC para esse fim, tampouco evidências claras de superioridade em relação ao sistema de irrigação por gravidade, entretanto em visita a algumas unidades de terapia intensiva observei a utilização da BIC para esse fim. Agradeço desde já pela atenção!”

Considerações Técnicas:

Em resposta à dúvida apresentada sobre a viabilidade e segurança da utilização de bomba de infusão para irrigação vesical contínua no pós-operatório de ressecção transuretral de próstata (RTU de próstata), o Comitê Técnico-Científico da ABENTI realizou uma análise da literatura disponível, bem como uma avaliação baseada em princípios fisiológicos e práticos aplicáveis ao contexto da terapia intensiva.

Após revisão em bases de dados especializadas, não foram identificadas publicações que apresentem recomendações formais ou protocolos amplamente reconhecidos que respaldem o uso de bomba de infusão para essa finalidade.

Ressalta-se que a pressão gerada por bombas de infusão pode ser excessiva e, quando não há monitoramento contínuo da pressão intravesical, há risco aumentado de complicações graves, tais como extravasamento vesical, perfuração e síndrome da absorção de irrigação (síndrome de TURP), conforme evidenciado por Demirel (2012).

Além disso, a irrigação vesical contínua requer um fluxo adaptável, especialmente diante da presença de sangramento ou coágulos. Essa variabilidade é mais bem manejada com o uso do sistema gravitacional, que permite ajustes imediatos e seguros, além de operar com pressão mais fisiológica, reduzindo o risco de danos ao paciente.

Ainda que em contextos altamente controlados e específicos se possa considerar a utilização de bomba de infusão com fluxos extremamente baixos e monitoramento rigoroso, essa prática é incomum e enfrenta obstáculos adicionais, como a escassez de recursos humanos e a alta carga de trabalho que podem ser encontradas em unidades de terapia intensiva.

Conclusão e Recomendação:

Diante do exposto, a ABENTI não recomenda a utilização de bombas de infusão para irrigação vesical contínua no pós-operatório de RTU de próstata. O método preferencial é o sistema de irrigação por gravidade, que oferece maior segurança clínica ao paciente por respeitar os limites fisiológicos da bexiga e permitir ajustes mais responsivos à condição clínica.

Atenciosamente,

Joathan Borges Ribeiro

Conselho fiscal e coordenador científico da ABENTI – Gestão 2025-2026

Demirel I, Ozer AB, Bayar MK, Erhan OL. TURP syndrome and severe hyponatremia under general anaesthesia. BMJ Case Rep. 2012 Nov 19;2012:bcr-2012-006899. doi: 10.1136/bcr-2012-006899.

Data: 16/09/2025

Emitido por: Comitê Técnico-Científico da ABENTI

Gostaria de saber se durante a administração de nitroprussiato de sódio pode ocorrer bradicardia. Diante dessa reação adversa/complicação, qual a conduta deve ser tomada?

Considerações técnicas:

O nitroprussiato de sódio é um potente vasodilatador venoso e arterial administrado por via intravenosa para tratamento de emergências hipertensivas refratárias. Quando ganha a circulação sistêmica, o nitroprussiato de sódio é metabolizado em óxido nítrico e em íons cianeto. O óxido nítrico produz o efeito da vasodilatação, porém o cianeto pode acumular-se e gerar intoxicação. A toxicidade por cianeto é um evento raro que pode ocorrer nas infusões altas (geralmente com vazão > 2 µg/kg/min) e prolongadas (>72h) de nitroprussiato de sódio. Para reduzir seus efeitos diretos ele pode ser convertido em tiocianato pelo fígado e ligado a metemoglobina para formar cianometemoglobina. O cianeto em excesso interfere na cadeia de transporte de elétrons na mitocôndria e prejudica a respiração celular aeróbia gerando hipóxia celular.

A bradicardia, ainda que seja rara, é um dos sinais graves que podem advir da intoxicação pelo cianeto, juntamente com hipotensão arterial, dispneia, acidose metabólica (especialmente acidose lática inexplicada), confusão, convulsões, coma e parada cardíaca.

Outra explicação para a ocorrência de bradicardia associada ao uso de nitroprussiato de sódio pode se dar em resposta a hipotensão, em que o estímulo baroceptor pode gerar um reflexo vagal aumentado com redução da frequência cardíaca, porém ainda assim é considerado um acontecimento raro.

Conclusão e recomendação:

Diante de um caso de suspeita de bradicardia por intoxicação por cianeto ou bradicardia por reflexo vaso-vagal durante uso de nitroprussiato de sódio, a ABENTI recomenda que a medicina seja comunicada e a infusão interrompida imediatamente, administrado medidas de suporte à vida (incluindo o manejo da bradicardia de acordo com o ACLS) e para as intoxicações, administrado antídotos como a hidroxicobalamina (liga-se de forma direta ao cianeto intracelular) e o tiossulfato de sódio (auxilia na conversão do cianeto para tiocianato). Importante sempre administrar o nitroprussiato de sódio em paciente devidamente monitorizado e com atenção de enfermagem especializada.

Referências:

Schimit GTF et al. Abordagem inicial da hipertensão arterial sistêmica em unidade de hemodinâmica: artigo de revisão. J Vasc Bras. 2013 Jun; 12(2):133-138. https://doi.org/10.1590/S1677-54492013000200008

Holme MR, Sharman T. Nitroprussiato de Sódio. PubMed: Statpearls Publishing; janeiro de 2025. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK557487/

Data: 06/12/2025

Emitido por: Comitê Técnico-Científico da ABENTI

 Irrigação vesical contínua em pós operatório de RTU próstata, causa trauma na bexiga?

Considerações técnicas:

A irrigação vesical contínua no pós-operatório de ressecção transuretral de próstata pode causar trauma na bexiga, especialmente se forem utilizados volumes excessivos ou pressão intravesical elevada, embora esse risco seja minimizado com técnica adequada e monitorização rigorosa. 

A irrigação vesical contínua é considerada segura quando realizada corretamente, mas complicações como irritação da mucosa, cistospasmo e, raramente, perfuração vesical podem ocorrer, principalmente em situações de pressão elevada ou grande volume de irrigação. Perfuração vesical é uma complicação rara, porém grave, que pode ocorrer durante a IVC, especialmente se houver pressão excessiva ou técnica inadequada, podendo levar à extravasamento de solução de irrigação e distúrbios hidroeletrolíticos.

Conclusão e recomendação:

Diante do manejo de IVC durante o pós-operatório de ressecção transuretral da próstata, a ABENTI recomenda que se implementem estratégias de manutenção de pressão intravesical baixa e monitorização contínua da irrigação. Devem ser garantidos fluxo livre de entrada e ausência de obstrução de saída, minimizando o risco de trauma vesical. Em caso de suspeita de lesão, a irrigação deve ser interrompida e a avaliação imediata realizada. 

Referências:

Ding A, Cao H, Wang L, et al.A Novel Automatic Regulatory Device for Continuous Bladder Irrigation Based on Wireless Sensor in Patients After Transurethral Resection of the Prostate: A Prospective Investigation. Medicine. 2016;95(52):e5721.doi:10.1097/MD.0000000000005721. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28033276/

Kim MJ, Bachmann A, Mihatsch MJ, et al. Acute Renal Failure After Continuous Flow Irrigation in Patients Treated With Potassium-Titanyl-Phosphate Laser Vaporization of Prostate. American Journal of Kidney Diseases : The Official Journal of the National Kidney Foundation. 2008;51(4):e19-24. doi:10.1053/j.ajkd.2007.11.031. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18371525/

Dorotta I, Basali A, Ritchey M, O’Hara JF, Sprung J. Transurethral Resection Syndrome After Bladder Perforation. Anesthesia and Analgesia. 2003;97(5):1536-1538. doi:10.1213/01.ANE.0000085299.24288.8C. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14570683/